NICOLAU-Livro EXTRAGEMA
- Valter Rogério

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Nicolau acordava quando o galo cantava
Bem cedinho de manhãzinha no nascer ensolarado
Pegava a enxada colocando-a sobre o ombro
Com o pano amarrado nela, levava sua marmita
O corote d´água e o rádio que com ele cantava.
No almoço arroz feijão ovo frito e tomate picado;
Dez horas parava para boiar como boia-fria
E desde então cantava eu quero cantar nos campos
Eu só não quero ficar sozinho e voar do meu ninho.
Capinava a leira na roça de tomate algodão amendoim,
O pomar, a horta do dono da fazenda encantada.
Oh vida linda, moça minha de meu viver de roceiro
Que terras um dia nesta vida terei de ganhar para plantar:
Lavoura no cio da terra, mais um homem a sonhar.
Então brincava e trabalhava dançando
Com suas ferramentas de homem do campo;
Lima, foice, enxada, arado e seu cavalo malhado;
E os meninos sorriam, os bóias frias choravam.
Certo dia num desses churrascos de carnear a vaca
Na fazenda do boi preto malvado do Dr. Patrão
Que favores aconteciam ao churrasquear o bicho inteiro
Como prisioneiro alfaiate colocando terno no caixão.
Nicolau bebeu comeu e cantou reluzente
Como uma sabiá laranjeira no despertar da aurora
E foi dar um mergulho na corredeira do riacho
Daquele arrebaldezinho o rio passava sua arribação
Audaz profunda, longe demais foi aquele poço malvado
Que parecia um pedaço do céu como estrelas do chão :
O bóia-fria danado e cheio de dívidas do seu pecado
Pegou viagem numa nuvem cigana e nunca mais voltou.




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