O RIO ENSIMESMO-Livro EXTRAGEMA
- Valter Rogério

- 9 de jul.
- 2 min de leitura
O rio achincalhado carrega suas águas até o mar
E acomoda seus ossos do viver diante do ofício.
Insensato poder das maravilhas humanas nuas
Constrói seus caminhos cursos em seus leitos
E se apodera do medo dos homens ocos e vazios
Como portas fechadas de casas casebres maltrapilhos
Onde nem ele mesmo cacos d’águas sabe água fria buscar.
Tem ele seus pedaços de riachos córregos que chegam
Até o mar que por si mesmo os ribeirinhos sabem navegar.
Estes fazem do mesmo ser amado como pele seca
A conter o mal distorcido da terra sofrida de frio casco
Como entes de suas próprias águas o fazem torto parir,
Se os infinitos carregam a gestação insólita viva de partes.
Os rios e seu charque encharquem de carnes secas
Que sobre as mulas nobres fazem sobre as águas passar
Pepitas de cargas carregam suores de ventanias corrompidas
De silêncio e ostras contidas taciturno entremeados das falácias
Diante dos olhos da fome e seus sentidos do subterrâneo
Arrasta magricela arranca das costelas de dor onde só ele
Sabe ter e ser sofrer de quem passou por este a conviver.
Quem sabe mesmo a terra terá esperança de olhos concisos
Tragos da fé e tragadas de fraquezas que homens mulheres
Não tem mais como viver e escarafunchar o sustento da vida
Contidas de alumínios e chumbo onde os peixes flutuam mercúrios
E deixam ali seu último suspiro tóxico de viver nesta arribação.
Como pode destruir o chão terraço que do mundo
Se faz e converte ponteira de cego em terra arada
E contrapõe por encaixar o desterro da sentença humana
Rebeldia como arreio sobre o corpo de um animal,
E suas barrigadas amarradas de vermes e piolhos
Que contém explorar da vida submundana humana:
Como porcos que roubam a mandioca da roça
Ensimesmo de cheiro o cortar da lama amortecida
Na escuridão diante das arribações e trovoadas.
Olho o rio e vejo que ele quer seguir seu curso
Antes de tornar-me adulto tinha medo da águas
Dos ventos e das trovoadas em cerrados savanas abertas.
Agora olho o poço profundo das movediças paradas
E nela não sei bem ainda o que tem dentro delas
Se podemos seguir diante do processo travado
E o que substancia o segredo dos homens em vão.
Muitas vezes achei que poderia ser um barco cigano
E seguir no mundo afora dos rios até chegar ao mar
Mas o rio tem riachos córregos lagoas e nascentes
Onde ainda não sei muito bem o que significa ser ou ter;
Como prisioneiro de meus sonhos inalcançados cossacos
Perdidos e ao mesmo tempo cercado de minhas dores
Temidas esperanças que chocam os pálidos a vencer.
Contudo penso no remanso dos mares de rios e marés
E certo talvez seria tudo acreditar que o soluçar da vida
Terá um fim ou talvez encontrarei meu ser num poente
Desacreditado incerto de saber que, contudo podemos
Soluçar e respirar; o que pode acontecer certo amanhecerá
Assim será o incerto percurso dos rios voadores a contar.




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